Um rio nunca é o mesmo..


EU... caçador(a) de mim


O fator tempo muda de forma irreversível um objeto ou entidade...

e o que pensamos ser a mesma coisa, só porque tem o mesmo nome, na realidade é algo em fluxo contínuo de mudança.

Compartilho o meu olhar...o meu olhar mutante.

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fevereiro 06, 2008

Carta aos pais - Rubem Alves

As férias acabaram...o carnaval também...agora é hora de pensar na volta ao trabalho!
Já que no artigo Situação mundial da infância-2008, postado aqui em 05/02/08, é falado um pouco sobre as necessidades enfrentadas por algumas famílias, chegando, muitas vezes, a provocar nas crianças, devido às carências sofridas, algumas defasagens físicas, cognitivas, emocionais e sociais, o que poderia torná-las casos de inclusão,sem mencionar aqui as diversas outras causas,achei oportuno colocar este texto (o grifo é meu)de Rubem Alves. Ele é perfeito para aqueles pais, ou até mesmo educadores, que ainda pensam que a inclusão não deve ser feita da maneira como tem sido, ou seja, em classes regulares (ou "normais").
Então vamos a ele:


Ah! troquei a música. Agora a "Ciranda da Bailarina" da Adriana Calcanhoto ilustra melhor.

Afinal quem é "normal"??????????? só mesmo a bailarina, conforme a música...ou como diz o autor,perfeitas mesmo só "maravilhosas peças de madeira de uma feira de artesanato"




Carta aos pais - Rubem Alves - (Correio Popular, 09/02/03)


Também sou pai e portanto compreendo. Vocês querem o melhor para o filho, para a filha. A melhor escola, os melhores professores, os melhores colegas. Vocês querem que filhos e filhas fiquem bem preparados para a vida. A vida é dura e só sobrevivem os mais aptos. É preciso ter uma boa educação.

Compreendo, portanto, que vocês tenham torcido o nariz ao saber que a escola ia adotar uma política estranha: colocar crianças deficientes nas mesmas classes das crianças normais. Os seus narizes torcidos disseram o seguinte: Não gostamos. Não deveria ser assim! O problema começa com o fato de as crianças deficientes serem fisicamente diferentes das outras, chegando mesmo, por vezes, a ter uma aparência esquisita. E isso cria, de saída, um mal-estar... digamos... estético. Vê-las não é uma experiência agradável. É preciso se acostumar... Para complicar há o fato de as crianças deficientes serem mais lerdas: elas aprendem devagar. As professoras vão ser forçadas a diminuir o ritmo do programa para que elas não fiquem para trás. E isso, evidentemente, trará prejuízos para nossos filhos e filhas, normais, bonitos, inteligentes. É preciso ser realista; a escola é uma maratona para se passar no vestibular. É para isso que elas existem. Quem fica para trás não entra... O certo mesmo seria ter escolas especializadas, separadas, onde os deficientes aprenderiam o que podem aprender, sem atrapalhar os outros.

Se é assim que vocês pensam eu lhes digo: Tratem de mudar sua maneira de pensar rapidamente porque, caso contrário, vocês irão colher frutos muito amargos no futuro. Porque, quer vocês queiram quer não, o tempo se encarregará de fazê-los deficientes.

É possível que na sua casa, num lugar de destaque, em meio às peças de decoração, esteja um exemplar das Escrituras Sagradas. Via de regra a Bíblia está lá por superstição. As pessoas acreditam que Deus vai proteger. Se assim fosse, melhor que seguro de vida seria levar uma Bíblia sempre no bolso. Não sei se vocês a lêem. Deveriam. E sugiro um poema sombrio, triste e verdadeiro do livro de Eclesiastes. O autor, já velho, aconselha os moços a pensar na velhice. Lembra-te do Criador na tua mocidade, antes que cheguem os dias das dores e se aproximem os anos dos quais dirás: "Não tenho mais alegrias..." Antes que se escureça a luz do sol, da lua e das estrelas e voltem as nuvens depois da chuva... Antes que os guardas da casa comecem a tremer e os homens fortes a ficar curvados... Antes que as mós sejam poucas e pararem de moer... Antes que a escuridão envolva os que olham pelas janelas... Antes que as pessoas se levantem com o canto dos pássaros... Antes que cessem todas as canções... Então se terá medo das alturas e se terá medo de andar nos caminhos planos... Quando a amendoeira florescer com suas flores brancas, quando um simples gafanhoto ficar pesado e as alcaparras não tiverem mais gosto... Antes que se rompa o fio de prata e se despedace a taça de ouro e se quebre o cântaro junto à fonte e se parta a roldana do poço e o pó volte à terra... Brumas, brumas, tudo são brumas... (Eclesiastes 12: 1-8)

Os semitas eram poetas. Escreviam por meio de metáforas. Metáfora é uma palavra que sugere uma outra. Tudo o que está escrito nesse poema se refere a você, a mim, a todos. Antes que se escureça a luz do sol... Sim, chegará o momento em que os seus olhos não verão como viam na mocidade. Os seus braços ficarão fracos e tremerão no seu corpo curvo. As mós - seus dentes - não mais moerão por serem poucos. E a cama pela manhã, tão gostosa no tempo da mocidade, ficará incômoda. Você se levantará tão cedo quanto os pássaros e terá medo de andar por não ver direito o caminho. É preciso ser prudente porque os velhos caem com facilidade por causa de suas pernas bambas e podem quebrar a cabeça do fêmur. Pode até ser que você venha a precisar de uma bengala. Por acaso os moinhos pararão de moer? Não, os moinhos não param de moer. Mas você parará de ouvir. Você está surdo. Seu mundo ficará cada vez mais silencioso. E conversar ficará penoso. Você verá que todos estão rindo. Alguém disse uma coisa engraçada. Mas você não ouviu. Você rirá, não por ter achado graça, mas para que os outros não percebam que você está surdo. Você imaginou uma velhice gostosa. E até comprou um sítio com piscina e árvores. Ah! Que coisa boa, os netos todos reunidos no "Sítio do Vovô", nos fins de semana! Esqueça. Os interesses dos netos são outros. Eles não gostam de conviver com deficientes. Eles não aprenderam a conviver com deficientes. Poderiam ter aprendido na escola mas não aprenderam porque houve pais que protestaram contra a presença dos deficientes.

A primeira tarefa da educação é ensinar as crianças a serem elas mesmas. Isso é extremamente difícil. Fernando Pessoa diz: Sou o intervalo entre o meu desejo e aquilo que os desejos dos outros fizeram de mim. Frequentemente as escolas esmagam os desejos das crianças com os desejos dos outros que lhes são impostos. O programa da escola, aquela série de saberes que as professoras tentam ensinar, representa os desejos de um outro, que não a criança. Talvez um burocrata que pouco entende dos desejos das crianças. É preciso que as escolas ensinem as crianças a tomar consciência dos seus sonhos!

A segunda tarefa da educação é ensinar a conviver. A vida é convivência com uma fantástica variedade de seres, seres humanos, velhos, adultos, crianças, das mais variadas raças, das mais variadas culturas, das mais variadas línguas, animais, plantas, estrelas... Conviver é viver bem em meio a essa diversidade. E parte dessa diversidade são as pessoas portadores de alguma deficiência ou diferença. Elas fazem parte do nosso mundo. Elas têm o direito de estar aqui. Elas têm direito à felicidade. Sugiro que vocês leiam um livrinho que escrevi para crianças, faz muito tempo: Como nasceu a alegria. É sobre uma flor num jardim de flores maravilhosas que, ao desabrochar, teve uma de suas pétalas cortada por um espinho. Se o seu filho ou sua filha não aprender a conviver com a diferença, com os portadores de deficiência, e a ser seus companheiros e amigos, garanto-lhes: eles serão pessoas empobrecidas e vazias de sentimentos nobres. Assim, de que vale passar no vestibular?

Li, numa cartilha de curso primário, a seguinte estória: Viviam juntos o pai, a mãe, um filho de 5 anos, e o avô, velhinho, vista curta, mãos trêmulas. Às refeições, por causa de suas mãos fracas e trêmulas, ele começou a deixar cair peças de porcelana em que a comida era servida. A mãe ficou muito aborrecida com isso, porque ela gostava muito do seu jogo de porcelana. Assim, discretamente, disse ao marido: Seu pai não está mais em condições de usar pratos de porcelana. Veja quantos ele já quebrou! Isso precisa parar... O marido, triste com a condição do seu pai mas, ao mesmo tempo, sem desejar contrariar a mulher, resolveu tomar uma providência que resolveria a situação. Foi a uma feira de artesanato e comprou uma gamela de madeira e talheres de bambu para substituir a porcelana. Na primeira refeição em que o avô comeu na gamela de madeira com garfo e colher da bambu o netinho estranhou. O pai explicou e o menino se calou. A partir desse dia ele começou a manifestar um interesse por artesanato que não tinha antes. Passava o dia tentando fazer um buraco no meio de uma peça de madeira com um martelo e um formão. O pai, entusiasmado com a revelação da vocação artística do filho, lhe perguntou: O que é que você está fazendo, filhinho? O menino, sem tirar os olhos da madeira, respondeu: Estou fazendo uma gamela para quando você ficar velho...

Pois é isso que pode acontecer: se os seus filhos não aprenderem a conviver numa boa com crianças e adolescentes portadores de deficiências eles não saberão conviver com vocês quando vocês ficarem deficientes. Para poupar trabalho ao seu filho ou filha sugiro que visitem uma feira de artesanato. Lá encontrarão maravilhosas peças de madeira...

janeiro 17, 2008

A BARBIE


(de Rubem Alves, em Teologia do Cotidiano)

Fiquei comovido quando li que foram encontradas bonecas em túmulos de
crianças no Egito, na Grécia e em Roma. Pude imaginar o que os pais deveriam
estar sentindo ao colocar aquele brinquedo junto ao corpo da filha morta.
Eles o faziam para que ela não partisse sozinha, para que ela não tivesse
medo...
De fato, uma criança abraçada a uma boneca é uma criança sem medo, uma
criança feliz. Os meninos, proibidos de ter bonecas, se abraçam aos seus
ursinhos de pelúcia. E nós, adultos, proibidos de ter bonecas e de ter
ursinhos de pelúcia, nos abraçamos ao travesseiro... Os objetos são
diferentes, mas o seu sentido é o mesmo: o desejo de aconchego e de ternura.

Por isso eu acho que o senhor e a senhora fizeram muito bem ao dar uma
boneca de presente para a sua filhinha.
Com uma exceção, é claro: se a boneca não foi a Barbie. Porque a Barbie não
é uma boneca. Falta a ela o poder que têm as outras bonecas, bebezinhos, de
afugentar o medo e provocar sentimento maternais de ternura. Não posso
imaginar uma menina dormindo abraçada à sua Barbie. Nenhum pai colocaria a
Barbie no túmulo da filha morta.

A Barbie não é boneca. É uma bruxa.

Posso bem imaginar o espanto nos seus olhos. Eu imagino também os seus
pensamentos: O Rubem perdeu o juízo. A Barbie é unta boneca de plástico, não
mexe, não pensa, não fala. E agora ele diz que ela é uma bruxa...
Que as bonecas, ao contrário das aparências, têm uma vida própria, eu
aprendi no 2° ano primário. Minha professora me deu um livro sobre bonecas e
bonecos: enquanto a gente estava acordado, elas ficavam deitadinhas,
olhinhos fechados, fingindo que dormiam. Mas bastava que os vivos dormissem
para que elas acordassem e se pusessem a falar coisas.

As bonecas foram os primeiros brinquedos inventados pelos homens.
E foram também os primeiros instrumentos de magia negra. Um alfinete,
aplicado no lugar certo de uma boneca – assim afirmam os entendidos – tem o
poder de matar a pessoa que se parece com ela.

Pois eu digo que a Barbie é uma bruxa. Bruxa enfeitiça. Enfeitiçada, a
pessoa deixa de ter pensamentos próprios. Só pensa o que a bruxa manda. A
pessoa enfeitiçada fica possuída pelos pensamentos da feiticeira e só pensa
e faz aquilo que ela manda.
Se falo é porque vi, com esses olhos que a terra há de comer. Basta que as
crianças comecem a brincar com a Barbie, para que fiquem diferentes. O pai
manda, a mãe manda, a criança faz birra e não obedece. Não é assim com a
Barbie. Basta que a Barbie mande para que elas obedeçam.
De novo você vai me contestar, dizendo que a Barbie não fala e não tem
vontade. Por isso não pode nem dar ordens e nem ser obedecida.
Errado. O fantástico é que ela, sem falar e sem ter vontade, tenha mais
poder sobre a alma da criança que os pais. Quem me revelou isso foi o
futurólogo Alvin Toffler, no seu livro O Choque do Futuro, que li em 1971. O
capítulo “A Sociedade do Joga-Fora” começa com a Barbie. Nascida em 1959, em
1970 mais de 12 milhões já tinham sido vendidas. Um negócio da China. E por
quê? Porque a Barbie, diferente das bonecas antigas, bebês que se contentam
com uma chupeta e um chocalho, tem uma voracidade insaciável. A Barbie é uma
boneca que nunca está contente: ela sempre pede mais. E essa é a grande
lição que ela ensina às crianças: Compra, por favor!

Para se comprar há as roupas da Barbie, a banheira da Barbie, o secador de
cabelo, o jogo de beleza, o guarda-roupa, a cama, a cozinha, o jogo de sala
de estar, o carro, o jipe, a piscina, o chalé de praia, o cavalo e os
maridos, que podem ser escolhidos e alternados entre o loiro e o moreno etc.
etc. A Barbie está sempre incompleta. Portanto, com ela vem sempre uma
pitada de infelicidade. Aliás, essa é a regra fundamental da sociedade
consumiste: é preciso que as pessoas se sintam infelizes com o que têm, para
que trabalhem e comprem o que não têm. A Barbie tem esse poder: quem a tem
está sempre infeliz porque há sempre algo que não se tem, ainda. E os
engenheiros da inveja, a serviço das fábricas, se encarregam de estar sempre
produzindo esse novo objeto que ainda não foi comprado. Mas é inútil
comprar. Porque logo um outro será produzido. É a cenoura na frente do
burro... Ela nunca será comida.

Quem dá uma Barbie para uma criança põe a criança numa arapuca sem saída.
Porque, ao ter uma Barbie, ela ingressa no Clube das Meninas que têm Barbie.
E as conversas, nesse clube, são assim: Eu tenho o chalé de praia da Barbie.
Você não tem. Ao que a outra retruca: – Não tenho o chalé, mas tenho o
marido loiro da Barbie, que você não tem.

Essa é a primeira lição que a inofensiva boneca de plástico ensina. Ensina a
horrível fala do eu tenho, você não tens. A maldição das comparações. A
maldição da inveja. Você deve conhecer alguns adultos que fazem esse jogo.
Haverá coisa mais chata, mais burra, mais mesquinha? Ao dar uma Barbie de
presente é preciso que você saiba que a menina inevitavelmente aprenderá
essa fala.
Isso feito, uma segunda fala entra inevitavelmente em cena, impulsionada
pelas ilusões da inveja. A menininha pensa: Estou infeliz porque não tenho.
Se eu tiver, serei feliz. O jeito de se ter é comprar.
– Papai...
– Que é, minha filha?
– Compra o chalé de praia da Barbie? Eu quero tanto...

Filha na arapuca. Pai na arapuca.
Mas há uma saída. E, para ela, procuro sócios. Vamos começar a produzir o
próximo e definitivo complemento para a bruxa de plástico: urnas funerárias
para a Barbie. Por vezes o feitiço só se quebra com o assassinato da
feiticeira – por bonitinha que ela seja...